Longhouse, Catedral e Cesarismo
Entenda os conceitos políticos mais importantes de nosso tempo e como eles se relacionam
Muito se tem falado sobre longhouse no último ano, pelo menos no meu entorno. Seja em lives, posts no X, Substack, conversas no Whatsapp e até casualmente no dia a dia, longhouse é um termo que uso com alguma consistência dentro e fora da bolha em conversas sobre sociedade e política — nacional ou não.
O problema é que recorrentemente as pessoas param de prestar atenção no que é dito para fazer sempre o mesmo questionamento:
“O que é longhouse?”
A longhouse é uma forma ancestral de estrutura comunal matriarcal de sujeição e vida estagnada. “Casa longa” — se quiser uma tradução ao pé da letra — uma casa metafísica e abstrata, mas também literal. Uma organização social onde o espírito dos jovens é dominado e quebrado por figuras de autoridade como matriarcas e velhos escleróticos; cadeias de comando e hierarquias explícitas são substituídas pela horizontalidade do status social implícito, onde o poder opera por consenso emocional forçado, vigilância mútua e mecanismos de controle baseados em vergonha, fofoca e ostracismo. Suas normas priorizam a segurança psicológica coletiva — uma espécie de superproteção tóxica — acima de qualquer outra consideração. Qualquer senso de privacidade é suprimido, ambição de superação individual é tratada como patologia, e aspiração superior de conquista e beleza é criminalizada em nome do miasma sufocante de conformismo e feiura. Estamos falando da hobbitização da população, da aniquilação de qualquer individualidade que se destaque em meio à massa indiferenciada, da caponização física e espiritual dos jovens, forçando-os a uma torpor fisiológico que os equaliza aos fracos e aos velhos. A fabricação cultural industrializada de um lumpesinato incapaz de conceber a possibilidade de imaginar algo para além de sua realidade decadente e desprovida de vitalidade.
A ideia da longhouse, e o motivo pelo qual lhes disse que ela é literal, vem de sua origem histórica: casas que indígenas norte-americanos, especialmente os iroqueses (ou Haudenosaunee, se assim preferir) viviam. Para além da mera estrutura arquitetônica que colocava múltiplas famílias sob um único teto extenso, sem divisão de cômodos ou quartos — coisa que era comum em múltiplos povos indígenas ao redor do mundo —, os iroqueses se distinguem pela influência decisiva das clan mothers — as matriarcas — e da matrilinearidade. Os clãs eram chefiados por mulheres, e a chefia era herdada pelo lado feminino da família. As matriarcas desempenhavam papéis sagrados centrais na governança, na família, nas cerimônias e nas resoluções de conflitos dos mais diversos.
BAP popularizou o termo em seu livro Bronze Age Mindset (2018) ao elevá-lo ao símbolo de sociedades comunais, sedentárias e telúricas, e foi abraçado pela direita dissidente da internet global. O fato se dá pela precisão cirúrgica, e em partes memética, com que o termo nomeia o mal-estar que homens jovens sentem, consciente ou inconscientemente, desde meados de 2010 — e que responderam com a explosão de movimentos masculinistas como o incelismo e redpill. Mas a questão aqui não é uma mera reclamação ou protesto contra o feminismo ou o wokismo. Trata-se de um diagnóstico de uma desequilibração civilizacional, onde universidades, corporações, a burocracia estatal e a mídia operam como uma grande longhouse. A ideia passa desde a consolidação da insuportável cultura de RH que todos conhecemos, até a já superada cultura do cancelamento que presenciamos com tanta intensidade na segunda metade da década de dez. Estamos falando de uma sociedade movida pela lógica de status social e reputação supervalorizados, onde um áudio vazado sobre mulheres que se parecem “deusas” pode custar uma inelegibilidade política de 8 anos e uma crise profunda em um movimento sociopolítico; sobre como um passo fora do “politicamente correto”, uma acusação falsa, um dano reputacional de qualquer natureza resulta em ostracismo profundo, perda de rendas e fim prematuro de carreiras.
Fato é que a ingressão progressiva de mulheres nas instituições e no mercado de trabalho (em alguns casos, como no RH ou em instituições de ensino superior, o domínio delas) gradualmente transformou tais ambientes — antes profundamente masculinizados, hostis e competitivos — em grandes salões terapêuticos que mais se importam com a segurança psicológica e bem-estar social do que com a entrega produtiva gerada pela competitividade masculina. E mais uma vez: não é necessariamente sobre a presença ou a natureza feminina, mas sobre a castração do impulso vital masculino sob o pretexto de proteção coletiva e culto ao telúrico.
Por conta disso, a longhouse é o habitat natural do bugman niilista passivo; sim, o bugman, o último homem, o goyim sojado, o betinha… aquele o qual nada sobra — produzido naturalmente em escala industrial por uma sociedade sem vitalidade: sedentário, viciado em dopamina barata, avesso a desconforto, dependente de aprovação coletiva e incapaz de imaginar e afirmar a vida para além da preservação do status quo. Ele não cria nada; é fadado à redistribuição do que há e à reclamação descabida de esforços reais que visam mudanças. Um servo da Trindade Divina da Modernidade, confiante de uma razão instrumentalizada, amante de um dinheiro abstrato que não foi feito para ele, e adepto a uma horizontalidade igualitária imposta artificialmente. Ele encontra na longhouse sua realização e seu conforto, afinal, foi moldado por ela sem se dar conta. O bugman não possui aspiração à grandeza, pois isso é inconcebível; a beleza, na verdade, é ofensiva e opressora, deve-se portanto aclamar o feio e o insalubre — vida longa ao lumpen! A ação, na verdade, é inútil; as correntes da modernidade já fazem parte de si — o “sistema” é foda e a burocracia corrupta é impeditiva demais. O que sobra? Rolar sua pedra montanha acima em um ciclo interminável como Sísifo; apegar-se a ideias inúteis e larpar de revolucionário enquanto toma remédios tarja preta; passar a vida como uma célula cancerígena amorfa, consumindo sem propósito tudo que está ao seu alcance.
Contudo, a longhouse não é simplesmente uma contingência social e política que surge com a quarta onda feminista e o wokismo pós-2010, mas uma manifestação recorrente do princípio feminino absoluto. Para compreendê-lo, é preciso descer às raízes históricas, antropológicas e, sobretudo, mergulhar na natureza do espírito lunar, pois a longhouse é o retorno da Grande Mãe quando a penumbra crepuscular toma o lugar do sol — e então é mantida pela Catedral em escala global, ou pelo menos em toda a civilização Ocidental. O coletivo feminino é o estado natural do grupo humano quando a abundância criada pelo princípio masculino permite que o telúrico assuma a gestão sem custo imediato.
Ginecocracia
Os exemplos antropológicos e históricos mostram como a longhouse se manifesta em roupagens diferentes em épocas e contextos diversos quando o princípio feminino rege uma sociedade, mesmo que através de soberanos do sexo masculino. Engana-se, porém, se pensas que a instituição da longhouse acontece por um plano maquiavélico das mulheres ao longo das épocas, como se fossem Bene Gesserit. Não é sobre isso. É sobre a transformação de um ambiente previamente equilibrado — ou até masculinizado — em um ambiente feminilizado pela consolidação do espírito feminino como zeitgeist.
O homem é solar: tende a ser indelicado, heróico, competitivo, bruto e violento. Grupos de homens naturalmente formam-se em relações militarizadas e hierarquizadas, onde aqueles que se destacam em determinadas tarefas ou por determinadas características, naturalmente obtém o respeito e tornam-se referência para os demais — e não me refiro necessariamente à subserviência. A partir do momento em que uma ou mais mulheres entram em um grupo predominantemente masculino, observa-se, em média, uma redução na agressividade direta, indelicadeza ou violência (verbal ou física) direcionada a elas, limitada pelas capacidades individuais de cada homem e pelas normas situacionais vigentes. Entre os homens, entretanto, a competitividade intrassexual tende a se intensificar, com elevação de comportamentos exibicionistas, tomadas de risco e rivalidade por atenção ou prestígio associado à presença feminina. Essa dinâmica ativa mecanismos de seleção sexual, aumentando a testosterona e a vitalidade que impulsionam a motivação para demonstração de valor e superação relativa entre os homens.
O mesmo não pode ser dito em uma situação contrária. Um ambiente majoritariamente feminilizado irá, na maioria das vezes, reprimir focos de masculinidade através do ostracismo, criando um senso unitário intragrupal contra o “agente invasor” que é o homem. A ameaça social aplicada por esse status ativa desconforto e desengajamento social masculino. Homens — especialmente jovens de baixo status socioeconômico ou atratividade — buscam a reclusão social e comunitária, alimentando a formação de enclaves masculinos paralelos (como grupos fechados de amigos, prática de esportes de alto rigor físico, ou jogos competitivos online), e em alguns casos, marginais (como subculturas online ou facções criminosas), onde homens podem extravasar sua masculinidade e encontrar um sentimento de pertencimento. Algo que não ocorre com homens de alto status social (belos, ricos ou profissionalmente bem-sucedidos) — esses são catapultados para o topo de uma hierarquia de harém, onde as múltiplas mulheres rivalizam pela atenção desse mesmo indivíduo. Aos que fogem dessas duas alternativas, resta a internalização e absorção das características femininas que regem as normas sociais do ambiente em busca de aceitação coletiva, submetendo-se então à ginecocracia.
O caso mais explícito e literal é o dos já citados iroqueses. As longhouses eram casas extensas de madeira e casca de árvore, às vezes com mais de 60 metros, abrigando até 20 famílias ou mais sob o mesmo teto. O sistema era matrilinear, ou seja, a descendência, a propriedade e a filiação ao clã passavam pela linha materna. As clan mothers — as matriarcas — escolhiam os chefes (“sachems”), controlavam a distribuição de recursos, decidiam sobre guerra ou paz e resolviam conflitos internos por pressão social, vergonha e exclusão. O poder exercido internamente era difuso, emocional, baseado em consenso e vigilância mútua. Mas até entre os iroqueses os homens tinham um refúgio de masculinidade: a caça — tarefa que exige disciplina, desgaste físico e dominação de si mesmo e da natureza que o cerca, sobretudo uma atividade única e masculinista que lhes pertencia.
BAP, em Bronze Age Mindset, não fica preso aos iroqueses. Ele generaliza a longhouse como símbolo de toda existência comunal sedentária e telúrica — o “modo levedura” das sociedades neolíticas europeias pré-arianas, aldeias agrícolas onde humanos viviam amontoados em condições de sujeira relativa sob controle de matriarcados que sufocavam a distinção individual em nome da solidariedade do grupo. O mesmo padrão reaparece nos haréns persas aquemênidas, no poder indireto das rainhas-mães e consortes. As mulheres do harém exerciam um papel político fundamental pela influência direta nas decisões tomadas pelo rei e nos bastidores com os eunucos. Sim, eunucos: homens castrados espiritualmente e literalmente para servirem sem qualquer ambição de glória e construção clânica; sua lealdade, honra e vida era jurada à realeza e sua função era meramente burocrática. Os eunucos eram fundamentais para a manutenção de impérios ao longo de eras e territórios, desde o Egito, China Antiga, Mesopotâmia e Império Otomano. Completamente opostos ao espírito solar (o rei, o guerreiro), eunucos e matriarcas são telúricos, a Grande Mãe institucionalizada, compelidos a funções gerenciais e domésticas.
Diferente do que é consagrado pelo feminismo contemporâneo, a figura feminina não é associada à gestão doméstica meramente por uma construção social patriarcal de milênios, pois a história humana é cíclica, não linear. Trata-se da alternância de eras e ciclos culturais que nascem, desenvolvem-se e declinam. E não por acaso, a primeira grande fase de toda cultura é a ginecocracia: telúrica, matriarcal, lunar. O princípio dominante é a terra, a mãe, o ciclo agrícola, a lei demétrica. Nela, é a mulher divina (seja na representação da Grande Mãe ou na deusa da fertilidade — Vênus de Willendorf, Lespugue, Laussel) que ocupa o posto do divino e do eterno, ela é o centro. Serpentes, pássaros, ondas e espirais representam o fluxo lunar, das estações, da vida e da morte; a figura feminina com seios, quadris e vulvas exagerados são símbolos da fertilidade telúrica, do ventre que gera e devora; ou seja, a mulher realiza sua individuação espiritual através da maternidade ou da adesão amorosa ao homem. Portanto, a feminilidade é transcendental e inerente ao sexo feminino, onde o princípio feminino é aquele que envolve, gesta e nutre o espírito seminal masculino até que ele atinja sua plenitude. É fundamental, complementar e cíclico. Até mesmo nas longhouses originais, as matriarcas eram responsáveis pela gestão doméstica enquanto os trabalhos de força bruta e eventuais guerras eram travadas por homens.
Os pré-arianos tinham suas longhouses porque o contexto de ambiente e técnica levavam ao sedentarismo agrícola. Os impérios antigos tinham haréns e rainhas-mães porque a conquista solar gerava riqueza suficiente para sustentar o harém. A sociedade ocidental contemporânea tem sua longhouse digital e burocrática porque os séculos XIX e XX, brutalmente masculinos (indústria, guerra e exploração), criaram a superabundância e conforto que permitiu a entrada maciça do feminino nas instituições sem colapso imediato. Quando não há um motivo óbvio para sujar as mãos de sangue — seja da presa na caçada, ou do inimigo em um campo de batalha —, quando o mundo físico perde espaço para o digital, o espírito solar perde sua relevância. O resultado acaba por ser sempre o mesmo: a hobbitização, a castração da vontade de potência, e o surgimento do sedentário, do último homem, do bugman. Quando não há sol, há ginecocracia, e quando isso acontece, há longhouse. Não há, contudo, romantismo. Há apenas o ciclo, onde a ginecocracia é o estado natural do coletivo quando o solar é ofuscado.
Como a Catedral sustenta a Longhouse?
O que mantém nossa ginecocracia viva hoje, em todo o mundo Ocidental — e o Brasil não foge a isso —, é a Catedral. Ela fabrica e impõe as normas da longhouse sem precisar de uma matriarca ditadora visível. A imposição vem de um aparelhamento ideológico que sustenta o princípio telúrico como nomos que se sobrepõe à natureza, ao instinto e à força vital do indivíduo. Se antes as grandes civilizações usavam eunucos como engrenagens burocráticas para manter regimes dinásticos, hoje a longhouse fabrica homens bugmanizados, entorpecidos pelo senso de submissão aos valores das matriarcas e dos velhos decrépitos. Castrados. Castrados não só pela remoção literal do falo (para se travestir), mas sobretudo pelo espírito solar. O indivíduo que possui apenas os atributos físicos de um homem, mas que não passou por uma individuação espiritual — um “segundo nascimento” que o retire do domínio dos instintos básicos e da massa coletiva — é o eunuco moderno.
Débil, impotente, incapaz de agir no campo da atividade efetiva ou de manter princípios firmes, ele se move apenas por emoções, desejos caóticos e paixões políticas. Mesmo que tente reafirmar a masculinidade através da força bruta ou de uma “animalidade ancestral”, continua sendo um simulacro, uma caricatura: suas raízes não estão no princípio transcendente. Ele pode ter músculos e boa estrutura corporal, mas ainda atua como carneiro no rebanho, pronto para defender a suposta superioridade sagrada da mulher e abafar qualquer revolta masculina autêntica. É um escravo da utilidade, sem destino próprio, servindo como ferramenta para o sistema técnico-industrial e para a estagnação de uma vida comunitária longhouseada e decadente.
A longhouse moderna manifesta-se precisamente através de burocracias e Estados gerenciais. Aqui o eunuco é também o “eunuco de alto escalão” ou o oficial submetido à ética de submissão e “chapa-branca”, que comanda sem ter verdadeira liberdade. Ele é parte da “prisão de ferro” que BAP cita, onde a vida é reduzida à manutenção e administração do que já foi criado — um sistema parasitário que depende de gerações anteriores terem sido suficientemente masculinas para construir a abundância que ele agora negocia e redistribui.
E o eunuco burocrático é, sobretudo, um servo da Catedral. Para quem ainda não sabe o que diabos é a Catedral, ou acha que sabe: trata-se do complexo burocrático, midiático e acadêmico controlado por senhores de narrativas que sustenta a longhouse ao fornecer a estrutura ideológica, técnica e institucional necessária para a domesticação e o nivelamento horizontal da sociedade. É uma estrutura fluida e orgânica, onde as narrativas se replicam automaticamente pela ação e devoção de seus adeptos — mesmo que inconscientemente.
A Catedral utiliza retoricamente conceitos como democracia, socialismo e feminismo para mascarar o que é, na verdade, um retorno a modos primitivos de subjeção coletiva. Enquanto a civilização ocidental deveria intensificar hierarquia e distinção, a Catedral promove o ideal da “comuna” e do igualitarismo — formas arcaicas de organização social onde a excelência individual é sufocada pelo consenso da massa amorfa. Seus paladinos usam uma imagem propagandística da ciência para induzir submissão e complacência. Essa roupagem científica, comprometida unicamente com suas próprias narrativas, serve para desencantar o mundo, promovendo secularismo e ceticismo, reescrevendo a história e forjando heróis convenientes, e censurando a qualquer agente dissidente. A força cátedra impõe uma visão materialista e fria onde natureza e ser humano perdem seus aspectos transcendentais, transformando-os em compostos mecânicos sem significância intrínseca ou aspirações de aventura e glória.
A democracia moderna é o estágio perfeito em que o elemento feminino se sobrepõe ao masculino em todas as esferas da vida pública. O “demos” — o povo — é ontologicamente feminino, a argamassa naturalista da sociedade, enquanto o Estado representa (ou pelo menos deveria) o elemento sobrenatural e masculino — estruturado hierarquicamente e com o monopólio da força. Portanto, democracia significa, esotericamente, o poder do feminino sobre o masculino. O político deixa de ser líder de comando para se tornar demagogo e, no fundo, uma prostituta que vive para as ruas, humilhando-se e adaptando-se aos caprichos da massa para ser cobiçado. Com a imposição do espírito feminino na política veio o pacote completo de feminilidade — um Cavalo de Tróia que substituiu a frieza e objetividade masculinas pelo emocionalismo e pelos dispositivos irracionais. Dessa forma, a ginecocracia democrática opera pelo terrorismo emocional, estruturando naturalmente a longhouse.
Contudo, é mais fácil para o “povo” aceitar como fluxo orgânico as ideias propagadas pelos intelectuais professores e jornalistas. Dessa forma, a conquista do senso comum se dá através de instituições civis como universidades e imprensa. Não à toa, parte dos princípios fundamentais da cátedra é o empoderamento inconsciente do lumpen. Conceder e obrigar o acesso de pessoas sem qualquer vocação acadêmica, por exemplo, às universidades, gerando de forma industrializada e cíclica agentes de propagação e defesa das narrativas impostas por outros adeptos da Catedral formados antes deles.
Lentamente a longhouse se espalha pelas universidades, pela mídia, pelo mercado de trabalho e chega à esfera política. A janela de Overton é forçada. E eventualmente o senso comum está dominado e as pessoas adestradas. O terror emocional vira uma arma de cooptação onde qualquer desconforto emocional torna-se ofensa punível, qualquer hierarquia explícita vira “opressão”, qualquer enaltecimento masculino se transforma em “machismo” e “misoginia”. A lei natural da força é sistematicamente substituída pela lei reputacional; e a arma perfeita do eunuco espiritual é um mestrado em ciências sociais, cargo de gerência em uma empresa e o terror constante de denunciar seus oponentes por um tweet antigo.
Por décadas, no Brasil, ser um “esquerdista” era cool. Você estava na vanguarda do pensamento. Jovens curiosos queriam abraçar as ideias de “progresso” e desafiar a estabilidade daquilo que já havia — algo natural e inerente à juventude. Assim, ainda nos anos 90, formou-se o Foro de São Paulo, a institucionalização do marxismo cultural e da “paulofreirização”/”piagetização” da educação. A abundância pós-guerra acentuou, inevitavelmente, desigualdades. Claro, a desigualdade é inerente à natureza, não somente humana — mas para a longhouse isso é um problema: a massa deve ser homogênea e manipulável. Duas décadas depois, o telurismo já balançava o consenso solar e as universidades do país todo já estariam dominadas espiritualmente — e posteriormente numericamente — por mulheres em cursos de humanas, administração e direito; a mídia tradicional propagando os mandamentos em horário nobre, e qualquer desvio do consenso passou a ser punido com ostracismo reputacional imediato. Em pouco tempo, não somente reputacional, mas com a marginalização e criminalização.
Inevitavelmente o Estado tornou-se a figura da Grande Mãe. Abra agora a página oficial do governo no Instagram e entenderá onde quero chegar. Ultra-assistencialismo, sobrevalorização de minorias e cotas para pretos e trans nas universidades, horizontalidade do status social pela imposição de dogmas igualitários, garantismo penal e políticas de ressocialização, e a lista segue. Você, caro leitor, pode argumentar que isso tudo só acontece porque estamos sob um governo de esquerda. “Ah, mas é o PT”. Ok. Podemos falar das clássicas “72 leis feministas” sancionadas por Jair Messias Bolsonaro? Estou falando de um suposto político de direita conservadora. Bem, conservador de fato. Até a direita nominal alimenta a longhouse quando o telúrico já capturou as instituições, e conservar significa preservá-las.
Posso falar também de seu herdeiro político — e filho — Flávio Bolsonaro. Outro eunuco burocrático. Ainda como senador, votou favoravelmente pela Lei da Misoginia. Não satisfeito, agora comprou também a pauta do fim da escala 6x1, tratorada por puro terrorismo emocional. Sob o guarda-chuva bolsonarista estão ainda os “gay e trans de direita”. Quando a suposta oposição aceita a gramática e a cosmovisão emocional da longhouse, já não existe oposição. Eunucos espirituais não possuem aspirações de grandeza e liderança. Portanto, jamais serão oposição à longhouse — apenas seus perpetradores e disseminadores. O máximo que podem fazer é mentir para si mesmos e repetir que “o sistema é foda mesmo”, enquanto votam no “menos pior”.
Devemos Queimar a Longhouse?
Muitas vezes ouvi, e até já disse “queime a longhouse!”. Queimar a longhouse, nesse caso, seria um ato simbólico de manifestar a Nêmesis, uma função purgativa da natureza que destrói os projetos fracos da ultra-racionalização mecanizada e os encantos narrativos propagados pelos clérigos da cátedra que seduzem homens e mulheres para se longhousearem. Um processo justo, talvez necessário, para limpar as sociedades Ocidentais do refugo e da feiura acumulada por décadas de domesticação. É o momento em que a força irreprimível da natureza volta a agir contra os excessos do consumismo e da degeneração dos homens fracos e contra a estagnação burocrática e sedentária. Portanto, queimar a longhouse seria inflamar a chama interna de vitalidade ao ponto de fazê-la transbordar e incendiar a prisão. Formar irmandades masculinas sob a égide de um mindset da era do bronze — de bárbaros, saqueadores e vândalos, de formas de vida superiores cheias de vontade de potência, diferenciados e com grandes aspirações; heróis. Queimar a longhouse é uma ilusão de niilismo ativo mal compreendido; penso que o resultado provavelmente seria apenas uma sociedade brutalista e violenta — como um terceiro reich pós-caótico de Weimar, um Estado de terror na Revolução Francesa, uma ascensão fascista de ex-combatentes da Primeira Guerra que voltaram para uma pátria desolada e sem perspectiva.
BAP diria que queimá-la é o caminho necessário para derrubar a ginecocracia e os valores das “matriarcas obesas” para reinstaurar o princípio solar e masculino de comando e soberania física. Para isso, seria necessário penetrar-se nos vícios e no submundo da sociedade para intensificar o caos e a pressão sobre o sistema até que ele falhe; atacar as autoridades e ridicularizar as normas sociais impostas até que a massa perca toda a fé na mídia, no governo e nas instituições da Catedral. Seria algo como lutar contra o Leviatã. Acontece que toda a direita do dito mundo Ocidental já fez, e continua a tentar desesperadamente fazer isso desde pelo menos 2014. Não resultou. Lutamos contra o Leviatã, a Catedral e seus devotos, apontamos suas hipocrisias e denunciamos os mecanismos de controle da longhouse. Houve o surgimento de irmandades masculinistas ao redor do mundo todo, e a direita até chegou ao poder. Sim, faço a correlação entre irmandades masculinistas com a direita pós-2010 porque no ethos de toda a direita global existem raízes incelistas. O problema foi que essa direita que alcançou o poder não soube exatamente o que fazer com ele. É aquela história do leão que domina o deserto e precisa transformar-se em criança para poder criar algo novo; somente algo verdadeiramente novo e atrativo é capaz de cooptar as massas para impor, não de forma ativa e forçada, mas passiva, seus valores e visão de mundo.
Por isso digo: não, não devemos queimar a longhouse. A Grande Mãe representa o espírito feminino que rege a longhouse. A Grande Mãe seduziu o Leviatã e o fez trabalhar para ela. O que devemos fazer é seduzir a Grande Mãe. A tarefa vitalista é canalizar conscientemente a energia telúrica para fins solares. Transformamos o Estado-Mãe em preservador de recursos que as fraternidades solares alimentam-se e se fortalecem. E isso é possível, é possível porque a mulher não é uma inimiga ontológica do homem, mas seu complemento. Ela é um termômetro cultural e anticorpo social. A ideologia padrão da mulher é qualquer uma que esteja em alta no momento. Devemos trazer o fator coolness para a direita solar. Não ter medo de demonstrar ousadia, ambição, beleza e vontade de conquista de espaços — tudo isso deve ser enaltecido. E fazer isso não corresponde necessariamente a criar uma guerra aberta e declarada contra o telúrico feminino, e sim utilizá-lo como combustível e inspiração para o élan vital.
É de extrema importância percebermos como a longhouse manifesta-se pela sobreposição do espírito feminino ao masculino, e como a feminilidade rege as normas e sociedade — e para desmontá-la basta um vibe shift, pois acabar com o espírito feminino seria o mesmo que remover da mulher o que a torna mulher. Por isso não se luta contra o que não pode-se derrotar, monta-se e cavalga-se o tigre, espere ele cansar, e dome-o.
Júlio César conquistou a República por dentro. Usou-se de todas as ferramentas das instituições republicanas — o Senado, o povo, o exército, o clientelismo — como ferramentas para acumular poder e devoção. Quando César tornou-se cônsul, a República já estava decadente há muito tempo. Era altamente burocratizada, guiada por homens sem virtude e aspirações, velhos decrépitos que sustentavam suas oligarquias com dinheiro público e que preocupavam-se unicamente de garantir a manutenção dessa estrutura. César, por outro lado, era um general, tão respeitado por seus comandados que foi alçado à Imperator — um título honorífico dado espontaneamente pelas legiões para generais virtuosos após grandes conquistas e vitórias, como já havia acontecido com Sula e Scipião. O que difere César dos demais homens de poder, é que este foi um vetor transformador e catalisador de mudanças que abriram o caminho para Octavius Augustus consolidar o Império. César conquistou a longhouse senatorial, a reorientou e a usou para abrir caminho para o Império que veio depois.
É isso que o mundo Ocidental exige, uma era de Césares. Nomes com grandes aspirações, vontade de transformação, ideias e capacidade para tal — como Bukele em El Salvador. E digo-lhes que o bugman, apesar de longhouseado e domesticado, é infeliz em seu cativeiro. Basta que ele receba um vislumbre de que pode viver em um mundo melhor; que lhe seja concedida a capacidade de imaginar algo além da visão limitada pelo seu capacete colorido — algo glorioso. Devemos guiá-los para fora da caverna e apresentá-los ao caminho do sol.








Obrigado por elucidar tais conceitos. Ainda preciso me aprofundar no funil da bolha.