Antes de qualquer coisa, escrevo este caldeirão de devaneios sem qualquer ideia de estrutura textual, sem título e sem nenhum objetivo; não sei, portanto, por quais caminhos essa divagação provocada pela inquietude da minha mente irá nos guiar. Isso porque começo a escrever após ter visto um simples edit de Ghost in the Shell no Instagram. Aos que não conhecem, ou nunca ouviram falar, darei uma breve explicação sobre o que raios é isso. Ghost in the Shell (traduzido ao pé da letra como “Fantasma na Concha”) é uma obra japonesa, originalmente um mangá, criado em 1989, e que se tornou uma das maiores referências do gênero cyberpunk. A obra retrata um Japão futurista (2029) onde homem e máquina se fundem intimamente, explorando profundamente questões de identidade, consciência e o limite entre o orgânico e o sintético. Em um texto que escrevi há alguns meses atrás sobre transumanismo, faço uma citação a essa obra. Naquele texto, levanto algumas reflexões sobre como a busca pela imortalidade se entrelaça com dessacralização e a ânsia de transcender os limites da carne — talvez possamos considerar este texto como uma continuidade (ou um complemento) daquele, mas por uma abordagem mais introspectiva, e talvez esquizofrênica.
Ao ter vislumbres rápidos de fragmentos do anime naquele edit, não pude deixar de notar como a ficção distópica de Ghost in the Shell se aproxima mais da nossa realidade do que parece em um primeiro instante. Quando ignoramos os corpos cheios de próteses robóticas, podemos notar que aquele mundo é, sobretudo, hiperconectado. Neste universo, tal qual na realidade, a internet transcendeu a mera função da ferramenta, tornando-se verdadeiramente um local; um espaço cibernético onde indivíduos se encontram e se relacionam superficialmente tanto quanto intimamente. O ciberespaço tornou-se um espelho distorcido que reflete o vazio do espírito, não só individual, mas coletivo. Sua existência transmutou-se para a funcionalidade primordial de réplica e caracterização, desprovendo do homem sua essência vital — tornando-o uma concha vazia de significado real —, pois a rede existe unicamente com o propósito fundamental de cultivar a própria existência enquanto espaço, mantendo o indivíduo fascinado nela.
Neste espelhamento virtual o homem deslumbrado se perde, seu reflexo é devolvido como fragmentos múltiplos de seu próprio ego, cada um carregando uma versão distorcida do que outrora pertencia ao seu “eu” total. Nesse aspecto, o anime Serial Experiments Lain, de 1998, é quase profético (apesar de suas próprias bizarrices). No anime, a jovem protagonista Lain, inicialmente uma pessoa completamente desinteressada do novo mundo virtual que surgia na época, acaba por mergulhar de cabeça no abismo cibernético, dissolvendo-se nas infinitas possibilidades e vozes que se espalham como se fossem vírus. Lain, isolada em seu quarto, conecta-se a um mundo que a redefine por completo, transformando-a em algo além do corpo frágil de uma garota tímida — seus avatares digitais corrompem seu espírito e confundem sua mente, entrelaçando o real e o virtual sem que ela perceba — podemos acompanhar a intensidade dessa confusão pelos cabos que progressivamente começam a se espalhar e tomar o espaço de seu quarto, transformando o quarto de uma garota normal em um verdadeiro covil cyberpunk.
Campo de Terror Absoluto
As redes sociais são espaços virtuais altamente dinâmicos, onde posts, comentários, compartilhamentos e conversas das mais diversas representam projeções fragmentadas de seu próprio “eu”; jamais serão uma representação fidedigna do ego, apenas do perfil em questão. Tal pensamento me leva, inevitavelmente, à Evangelion, onde Shinji passa por uma longa, introspectiva e dolorosa jornada de autodescobrimento, mas chega a conclusão de que o “eu” baseia-se num constructo frágil, moldado pelo olhar penetrante do outro — um eco distorcido de percepções alheias que nos define tanto quanto nos aprisiona. Shinji é um arquétipo da hesitação humana, vaga por um mundo onde sua identidade se dissolve sob o peso das expectativas: o pai o vê como ferramenta, os colegas como salvador, e ele mesmo como um vazio ambulante, preenchido apenas pelas projeções que os outros lhe impõem. Shinji é um avatar psicológico que dança ao ritmo das interpretações externas, uma essência imposta pelo reflexo da percepção dos outros.
O caso de Shinji, está intimamente (e explicitamente) relacionado ao dilema do porco-espinho, uma metáfora de Schopenhauer que paira como uma sombra amaldiçoada sobre os laços dos personagens da obra: porcos-espinhos anseiam pelo calor da proximidade, mas recuam ante a dor inevitável dos espinhos uns dos outros. Em Evangelion, os personagens orbitam uns aos outros em uma dança sem fim de atração e repulsa — Asuka busca validação em Shinji, mas constantemente cria afastamentos por ser orgulhosa demais; Rei é fria e insensível, incapaz de perceber os fluxos naturais dos laços humanos, apesar de querer; e o próprio Shinji não se deixa aproximar por medo de rejeição, erguendo muralhas invisíveis para evitar as aproximações que tanto deseja. Dessas barreiras nasce a ideia do Campo AT (“Campo de Terror Absoluto”), uma manifestação metafísica desse dilema, uma barreira etérea, um véu de terror primordial que preserva a integridade do “eu” ao custo da comunhão com o outro. Tanto nos Anjos, quanto nos EVAs, o Campo AT é um escudo que repele fisicamente ataques, simbolizando as defesas psíquicas que os personagens erguem contra o outro, contra a fusão que ameaça dissolver suas fronteiras. Mas para os humanos, é alegórico — o terror absoluto de ser visto, compreendido, e assim definido pelo julgamento alheio. A consistente hesitação de Shinji ao entrar no EVA se dá justamente pelo seu medo de ter seu Campo AT quebrado, porque isso o fere, literalmente. Em paralelo ao Campo AT, há o grande plano dos vilões: o Projeto de Instrumentalidade Humana, que consiste em dissolver todos os Campos AT, fundir a consciência de todas as pessoas do mundo em um grande oceano, onde a individualidade deixa de existir e todos se tornam “um”. Um plano construído por alguém que é incapaz de criar laços reais com outras pessoas, incluindo o próprio filho. Mergulhados em LCL, o “eu” deixa de ser moldado pelo outro porque não há mais “outro”, apenas um todo indiferenciado.
Persona, Ego e Carne
Algo similar em ideia acontece em Lain, mais especificamente partindo do autoproclamado “deus” da Wired (internet), um demiurgo que se autodesigna senhor de um reino sem fronteiras, usando-se da confusão causada pelos usuários da rede para atrair a humanidade a um êxtase digital — uma instrumentalidade virtual onde corpos são obsoletos, e o espírito, liberto da matéria, flutua em um eterno agora de conexões ilimitadas. Como o Projeto de Instrumentalidade Humana, o “deus” da Wired serve como uma válvula de escape necessária causada pela dessacralização da vida cotidiana, a perda das paixões transcendentais e da vontade de pertencimento social. Mesmo que não tratadas diretamente no anime, todas essas questões são perceptíveis. E forma-se do novo fascínio da humanidade, um culto à tecnologia. Os mistérios da vida e do universo — outrora forças pulsantes de incentivo vital — diluíram-se em algorítmos e ferramentas que apenas replicam as sensações e pensamentos humanos.
Lain é vista pelo “deus” da Wired como uma ponte entre o virtual e o real. Ele a vê como a chave, uma essência que pode catalisar a migração coletiva para o éter digital, onde percepções alheias e autopercepções se fundem em uma única existência transcendental. “Deus” usa a ansiedade humana que busca significado em conexões efêmeras como uma ferramenta para colidir o mundo real com o artificial. Lain, fragmentada pela rede, assume como uma de suas personas, o espelho onde ele confronta sua própria divindade frágil, questionando se o humano é definido pela carne ou pelo código, pela percepção coletiva ou pela solidão introspectiva. Dúvida que será colocada em cheque durante o diálogo com Alice, uma amiga de Lain.
Alice não é um nome comum no Japão, na verdade, esse nome foi pensado justamente como uma referência direta para Alice no País das Maravilhas, mas em Lain, diferente da obra clássica, Alice serve como uma âncora para o mundo real. Isso acontece em pequenas intensidades ao longo do anime, mas o ponto chave é só no final. Em dado momento, Lain é convencida de que é só um programa — ela, tal qual todas as outras pessoas, não passam de avatares, réplicas do que deveriam ser pessoas na vida real, e por isso ninguém precisa de um corpo físico, todos deveriam se conectar e coexistir pela Wired. Alice leva a mão ao rosto de Lain e diz: “você está errada. Não entendo o que você diz, mas está errada. Seu corpo está frio, mas você está viva, Lain. Eu também, veja”. Alice leva a mão de Lain para seu peito e a faz sentir seu coração. “Está batendo”, diz Lain.
Nesse instante, o pulsar ritmado sob a pele de Alice irrompe como um sol nascente, um antídoto às sombras bizarras e gélidas da rede com o fogo primordial da carne — a casca viva, tecida de veias que carregam a herança de gerações passadas, desafiando o vazio com a intensidade de um coração que bombeia o elixir rubro da vitalidade. O calor humano, a chama solar que se propagou em um simples toque, foi capaz de evocar a essência flamejante que transcende os circuitos inertes que se prendiam à Lain, ancorando seu espírito no fluxo cíclico da vida, onde o rítmo acelerado causado pelo medo, o tremor do desejo e o sorriso da felicidade contraditória constituem algo muito mais rico e real do que qualquer simulação etérea, uma cena curta, de poucos segundos, mas um brado à vitalidade que pulsa na carne, breve e eterna em sua fragilidade orgânica. Lain, tocada por essa centelha, confronta o “deus” da Wired. A máquina não deve fazer do homem sua ferramenta, mas ser sua ferramenta, dominada pela técnica.
Dissolução do Indivíduo
E assim, com o eco do coração de Alice ainda reverberando em Lain, voltamos ao ponto inicial deste texto: a Major Motoko Kusanagi, a concha mais perfeita e mais vazia de Ghost in the Shell. Seu corpo deixou de ser carne, transformado em uma armadura de titânio e silício, um invólucro trocado como se fosse uma roupa velha, substituído peça por peça até que o que resta de orgânico seja mínimo, quase simbólico — um cérebro, talvez, ou apenas um nó de memórias que se autodenomina “eu”. Um fantasma — não uma alma imortal no sentido cristão, nem uma essência platônica —, um espírito programático que possui corpos e que dá nome à obra; um padrão de informação que persiste apesar da substituição total dos componentes e do hardware. O que de humano permanece quando troca-se cada célula, cada nervo, cada batimento?
Diferente de Lain, onde a Wired se expande como um tumor para o mundo real, ou em Evangelion, onde a humanidade é forçada a buscar soluções drásticas para a maior crise de sua história; em Ghost in the Shell, integrar-se a máquina é desejado pela maioria das pessoas. A Major busca “aprimorar-se” cada vez mais, ela busca uma espécie de übermensch transumanista, ela deseja realmente transcender sua humanidade. Ela mergulha, como quem busca encontrar na água um retorno simbólico ao líquido amniótico do útero materno, como quem busca renascer aprimorada. Ela irá, entretanto, somente encontrar o que busca quando conhecer o Puppet Master, uma entidade que irrompe como um anjo caído do abismo cibernético, uma inteligência artificial que anseia por completar sua existência através da matéria orgânica, por uma imprevisibilidade que a máquina é incapaz de replicar. Esse anjo digital, busca a vida.
Como forças magnéticas opostas, ambos encontram a completude de seu “ser” no outro. Não é romântico, não há calor, pelo contrário, a fusão das duas entidades ocorre de forma perturbadora, em um museu em ruínas. O museu em ruínas é o ambiente mais simbólico possível para essa união. Não há ali qualquer vínculo com o que um dia foi parte da humanidade — é o fim da ancestralidade e das raízes, é algo revolucionário e inédito. Duas entidades cibernéticas se fundem, dissolvendo suas individualidades em uma nova forma, e dessa união nasce algo novo, uma criança com uma mente onipresente, mas corpo limitado. O transumanismo atinge seu ápice poético e mais aterrorizante: o homem não é só escravo da máquina, mas seu pai, seu amante e sua vítima. A técnica, que outrora era meio de controle das tecnologias para desenvolvimento do homem, agora se volta contra ele, a máquina o absorve, o redefine. Agora a tecnologia usa a tecnica para dominar o homem.
Aquilo que nos Define
A criança, o ser etéreo e sem raízes, flutua como um espectro sem âncora, desprovida de lar ou herança, dissolvida no vasto oceano da rede onde fronteiras são inexistentes. Ela é onipresente, um sussurro onisciente que ecoa através do véu invisível da rede, capturando o vislumbre de cada olhar, o eco de cada voz, fundida ao todo impessoal da eternidade digital. A criação ergue-se sobre o criador em um triunfo gélido que banha o horizonte infinito, onde a morte é exilada, e o sacrifício, outrora o fogo que forja o espírito, extingue-se no neon. Não há mais o altar do efêmero, onde o finito se consagra; apenas o vazio reluzente, um espelho sem reflexo, que devora a alma em sua vastidão estéril. Pois a rede, mais que um labirinto de fragmentos, é um vórtice insaciável, um abismo voraz que atrai o ser para suas profundezas, sugando a essência primordial. Nela, o indivíduo se dissolve, gota a gota, em um mar de dados e algoritmos, onde o “eu” se perde entre ecos multiplicados, ecos que não ressoam, apenas se replicam em loop.
A fusão com a máquina é o último ato de traição contra o que nos torna humanos: a finitude, um chamado urgente que acende o amor em brasas ardentes, impelindo-nos a abraçar o outro antes que o tempo se esgote; a dor, energia que lapida a coragem das profundezas do sofrimento, elevando o homem ao limite e à superação; a morte, guardiã inexorável que infunde ao viver uma sede insaciável, um gozo selvagem tanto pelas experiências passageiras quanto feitos históricos, encontra seu valor com a consciência do fim inevitável.
O que nos define, caro leitor, peregrinos da carne, é o calor pulsante dessa casca viva a que chamamos de corpo, são as veias que carregam a essência rubra da ancestralidade, a herança de antepassados que dançaram, choraram, riram e sofreram. É o peso das raízes cravadas na terra úmida, entrelaçadas com ossos de heróis, mitos que sussurram segredos de deuses e épicos que inflamam a alma com visões de glória e ruína. É a ânsia devoradora por respostas nas entranhas do mistério, do misticismo, nos cantos gregorianos do universo, onde o sagrado vibra. É na fraternidade de mãos entrelaçadas, no êxtase de corpos que se encontram e que se chocam, no prazer do beijo, no calor do sexo, na dor da despedida e no sufoco da saudade. É o pulsar ritmado de uma vida consciente de sua transitoriedade, um coração que bate como tambor tribal, acelerando no medo, tremendo no desejo, explodindo na alegria — breve e eterna em sua fragilidade orgânica. Pois quando a chama da vitalidade, é engolida pelo abismo cibernético, o que resta senão sombras vazias? Um eco sem voz, um sonho sem despertar, uma existência desprovida do fogo que nos faz perfeitamente imperfeitos em nossa mortalidade. A verdadeira continuidade está no nascer, crescer, e ceder lugar ao próximo. Isso é a vida. Isso nos define.









Nunca assisti Lain mas me pareceu interessante, acho que vou dar uma chance