Vontade de Potência
Niilismo Ativo e Afirmação da Vontade: a superação da Trindade Divina, a vitalidade para os Césares.
Da Decadência Niilista
Caso você tenha lido um dos meus dois últimos textos sobre vitalismo, deve se lembrar do bugman, meu saco de pancadas: um ser aprisionado na rotina mecânica da modernidade, sedentário, acima do peso, avesso ao risco, conformado com a mediocridade de uma existência sem forma ou propósito. Nosso amigo bugman foi domesticado pela Trindade Divina da Modernidade, agora jaz mergulhado em um niilismo profundo – cético com tudo que o cerca, descrente até mesmo a respeito de sua capacidade de agir para mudar o cenário ao seu redor. Ele está em uma situação de estresse extremo, suprimido e engaiolado pelos dogmas de sua nova religião, mas até mesmo no fundo do poço existencial, ele encontra um cantinho escuro para seu próprio conforto – ele tem um celular, uma coleção de tintas para cabelo, quem sabe algumas substâncias entorpecentes ou alucinógenas, e claro, um bom acesso à internet para que ele possa venerar seus influencers políticos favoritos e os paladinos da Trindade Divina. O problema é que o bugman, tal qual todos seus irmãos de fé, no fundo são tristes e depressivos, até porque sob sua fantasia colorida está somente o vazio. Ele precisa de uma validação constante de suas crenças para não surtar da mesma forma que uma engrenagem precisa de óleo para continuar girando – assim se dá o funcionamento do grande maquinário social/político do exausto ocidente. Converta-se ou sucumba, questione ou negue a fé que seus créditos sociais serão cancelados. Os fracos estão no controle, portanto, ser forte e se destacar da manada é estritamente proibido. Ou pelo menos, assim era.
Nenhuma estação termina abruptamente para dar lugar à próxima – a primavera começa a dar pequenos sinais antes de tomar o lugar do inverno, e os animais percebem isso por puro instinto. No texto anterior, propositalmente deixei de fora um conceito de Nietzsche muito importante: a Vontade de Potência. Ela surge como uma extensão prática do élan vital de Bergson – deixando de ser uma abstração metafórica e tornando-se um impulso afirmativo canalizado para a superação pessoal e social –, um antídoto vitalista ao niilismo, uma força criativa que transcende a moral escrava e o ressentimento dos fracos, impulsionando o indivíduo a criar seus próprios valores e afirmar a vida em toda sua intensidade. A eleição de Trump inegavelmente abalou as estruturas da Catedral e da fé da Trindade, não por ele ser uma espécie de “escolhido” ou um César que está destinado a acabar com toda essa palhaçada, mas ele é um símbolo muito forte dessa fadiga cultural, e provavelmente ele esteja apenas pavimentando o caminho para o surgimento, não de um, mas vários Césares ao redor do mundo. Estes Césares são os líderes ousados e carismáticos que rejeitam a domesticação, são “homens de poder”, que neste momento estão reconquistando seu espaço vital perdido e restaurando sua natureza primordial, neste exato momento, estão pavimentando o caminho rumo ao Übermensch.
Líderes não surgem do além, um líder não lidera nada se não existem pessoas dispostas a segui-lo, e líder nenhum será capaz de quebrar as grades da prisão, se não existirem pessoas unidas por laços de fraternidade lutando pelo mesmo propósito que ele. A vontade que move o líder deve se manifestar na mesma intensidade e direção que a vontade que move aqueles dispostos a investir contra o inimigo – abstrato ou não –, do contrário, o exército se dispersa e o corpo perde o senso de unidade, e contra um oponente já muito bem estabelecido, tropas dispersas são meros sacrifícios. A grande questão aqui é: a Vontade de Potência vai muito além de meramente querer muito alguma coisa, ou uma “vontade de verdade” que é justamente aquela que faz com que o bugman encontre na Catedral, a validação de sua fé, a Vontade de Potência é aquela que força o indivíduo a se expandir para dentro, aprimorar-se, tornar-se mestre de si. Somente assim poderá se tornar um verdadeiro “homem de poder”, só assim poderá impor sua vontade e construir um futuro glorioso.
Niilismo Ativo e as Vontades
É bem provável que no presente momento, o leitor já familiarizado com Nietzsche deve ter notado que eu deixei um vácuo, uma lacuna entre os conceitos do alemão. Talvez você tenha se incomodado com isso, esse sentimento de que tem uma peça faltando – pois bem, chegou a hora de falar disso. No meu texto passado, tratei o niilismo como um buraco negro que devora tudo em seu alcance — o vazio existencial, a apatia generalizada, o ceticismo que imobiliza o espírito. Esse é o niilismo passivo, o dos “últimos homens” que Nietzsche critica em Assim Falou Zaratustra: seres conformados que drenam o oceano da vida, indagando em silêncio “onde reside o mar para que eu me perca nele?”, mas sem a audácia para mergulhar. Trata-se de uma resignação absoluta, uma aceitação do nada como destino inevitável, um estado patológico que Nietzsche denomina “mal necessário” em A Vontade de Potência — um purgatório onde os valores ancestrais se desintegram, deixando apenas decadência e fraqueza. A saída mais fácil já foi apresentada para o leitor, está na Trindade Divina: na supressão do élan vital, na bugmanização, nas filosofias anti-humanas que assolam a modernidade.
Tais características se manifestam pelo que Nietzsche chama de “vontade de vontade”, uma carência insaciável nascida do vazio que ele mesmo escava. É como um vazio que clama por preenchimento, impulsionando o consumismo voraz, onde o bugman acumula bens efêmeros para simular um propósito fugaz, aferrado a estímulos digitais de dopamina superficial, ocupações alienantes, ideologias vazias ou até uma certa propensão a cair em relações e situações tóxicas e degradantes apenas para evadir o ensurdecedor silêncio interior – uma vontade de qualquer substância, unicamente para mitigar o horror vacui. Essa é a antítese da vitalidade primordial, onde a luta por espaço é um instinto puro e afirmativo.
Inversamente, o niilismo ativo atua como um martelo que fragmenta o obsoleto para edificar o novo – destruição criativa, o niilismo como sinônimo de poder, encarnando transformação e vigor em vez de aceitação e decadência. Tenhamos as “três metamorfoses do espírito” como exemplo: o espírito do camelo, do leão e da criança. O camelo é aquele que suporta o peso com obediência, abaixa a cabeça para aquilo que lhe é imposto. Mas chega um momento em que o camelo precisa ir para o deserto — o lugar da solidão e da prova — para transformar-se. “No deserto, o espírito torna-se leão. Quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu próprio deserto”. O leão é o espírito da força de negação, de enfrentamento aos costumes que lhe foram impostos, é o espírito liberto, mas ainda incapaz de criar. O leão, portanto, deve se tornar criança. “A criança é inocência e esquecimento, um recomeço, um jogo, uma roda que gira sozinha, um primeiro movimento, um dizer-sim sagrado.”. O espírito da criança é afirmativo e criativo.
Eis, então, a Vontade de Potência como o remédio supremo: não uma “vontade de vontade” carente, mas um impulso afirmativo que se expande, supera e conquista – uma energia que transborda, gerando valores autônomos e afirmando a vitalidade. Em diálogo com BAP, ela se revela como a luta por espaço vital elevada: o homem repele a domesticação para reclamar territórios internos e externos, forjando fraternidades e hierarquias naturais, em vez de se submergir no consumismo estéril. Há aqui um breve aceno ao “anarca” de Ernst Jünger – o soberano isolado que exerce potência no caos contemporâneo, sem subjugação à multidão –, essa vontade o torna senhor de si mesmo, confrontando o declínio faustiano com verdadeira ação.
Natureza Masculina, Fraternidade e Emboscamento
Reflitamos sobre a essência da masculinidade, ela é a encarnação viva da Vontade de Potência que Nietzsche nos legou. A natureza masculina vem de uma força primordial de ousadia, risco e liderança – oposta ao bugman e aos devotos da Trindade Divina, servos da Catedral. O homem que exala vitalidade é antes de tudo, um guerreiro que forja seu corpo e espírito em busca da excelência, confronta a supressão da moral escrava e conquista seu espaço na hierarquia natural. Essa masculinidade representa a vitalidade em seu ápice: não por mera vaidade, mas pela vontade de conquista. Corpos belos e potentes são veículos de poder – saúde, força e carisma, onde beleza e vitalidade se entrelaçam em arte e corpo. Contra o bugman obeso e inerte, o homem masculino carrega o espírito da criança de Nietzsche, afirmando “sim” à vida através do risco, sem medo de tropeçar no caminho, sem medo de mergulhar de cabeça no abismo, sem medo de falhar. O homem vitalista deve abraçar o desconforto e provar seu valor pela sua vontade e superação.
Para atingir seu potencial máximo, o indivíduo em processo de “bugmanização” precisa reacender sua chama vital, lutar por seu espaço e conquistá-lo. Lembre-se do primeiro texto dessa trilha: como os ancestrais do bugman se fortaleceram com laços de fraternidade, desafiando a natureza e seus rivais para prosperarem; como os animais buscam aprimorar seus poderes inatos para não apenas conquistar território, mas serem mestres de si. Essa masculinidade, porém, não é capaz de transformar nada em isolamento; essa capacidade floresce em expansão social, reconquistando o espaço vital em grupos. Nossa bolha é unida, mas uma bolha é frágil por natureza, tornemo-nos entretanto, em uma fraternidade, uma ordem, uma rede de homens vitais que desafiam as estruturas niilistas da modernidade, cultivando uma potência coletiva para a “destruição criativa” – demolir a Catedral da Trindade Divina e estabelecer hierarquias naturais baseadas em excelência.
Fortemente inspirado por Nietzsche, Jünger faz alusão a um “emboscamento” – o Waldgang, aquele que se recolhe ao bosque como ato de resistência soberana contra a civilização totalitária e niilista. Talvez você já tenha ouvido falar em “matopill”. O Waldgang escapa das massas mecanizadas, reconquistando liberdade interior para afirmar sua vontade no caos. Com alguma abstração, podemos considerar que o pensamento homogêneo das massas são as grandes metrópoles culturais e espirituais, e o bosque é aquilo que circunda as cidades construídas ao redor da Catedral – pois neste momento a onça refugia-se no bosque e busca a conquista de seu território entre as árvores.
Zaratustra de Nietzsche, é o eremita que desce a montanha para compartilhar sabedoria, de espírito livre para criar novos valores. Ele ama o homem e portanto deseja elevá-lo. O Anarca de Jünger (fundamentalmente diferente do anarquista, como conhecemos), é o homem livre de amarras, que preserva sua própria soberania e transcende a decadência do mundo. O Anarca, entretanto, não deseja se relacionar com ninguém. Precisamos uni-los: o melhor de Zaratustra com o melhor do Anarca – homens que exercem potência em grupo, rejeitando o cosmopolitismo espiritual para forjar comunidades que cultivam hierarquias baseadas em excelência. No declínio faustiano, o emboscamento coletivo demonstra sinais do fim do inverno, preparando uma primavera de culturas renovadas. A onça no bosque, assim como o leão de Nietzsche, precisa ser onça para desafiar e vencer o dragão, mas precisa tornar-se criança para criar algo verdadeiramente novo.
A Ascensão dos Césares
Chegamos ao crepúsculo reflexivo desta exploração vitalista, onde o declínio faustiano de Spengler prenuncia a ascensão dos Césares – figuras imperiais que emergem das cinzas de uma civilização exausta. Spengler profetiza que, no inverno cultural, a democracia cosmopolita e igualitária – essa ilusão atomizada que mascara a plutocracia, como exploramos no texto anterior – desaba sob seu próprio peso, dando lugar ao cesarismo. Acredito ser importante dizer que Spengler não enxerga isso como algo intrinsecamente bom ou ruim, apenas como uma inevitabilidade da fase civilizacional do ciclo histórico. Neste ponto, há uma inevitável concentração de poder em líderes fortes – os “homens de poder” que BAP celebra –, como Júlio César ou Napoleão, figuras que impõem ordem no caos, reconquistando espaço vital através de sua vontade autoritária. Esses Césares são os arquétipos da transição: eles petrificam a cultura moribunda ao mesmo tempo que semeiam o terreno para um novo ciclo, onde a vitalidade pode florescer novamente.
Dentro da perspectiva vitalista, os Césares são as figuras que encarnam a Vontade de Potência em escala social: a onça que dominou o bosque agora volta suas garras para as cidades com o intuito de enfrentar o dragão que as dominam; uma vez que o dragão for superado, a criança começa a criação. Mas é preciso vencer o dragão, como fazer isso? Verdadeiros “homens de poder”: ousados, carismáticos, impulsionados pela vitalidade masculina e pela Vontade de Potência. Aqueles que praticam o niilismo ativo para destruir e criar; que formam laços de irmandade e restauram as hierarquias naturais em oposição à imposta pela Trindade Divina. No processo, arautos dessa vontade surgirão, eles colecionam seguidores fiéis, mas não serão eles os verdadeiros Césares. Citei Trump no começo do texto, definitivamente ele não é o César Americano, mas definitivamente ele está pavimentando o terreno para a chegada dos verdadeiros – talvez o Monarca CEO que Yarvin deseja –, possivelmente alguns ascendam e fracassem na luta contra o dragão antes que um herdeiro consiga destruí-lo. Acredito que se isso acontecer, será um processo de longos e complicados anos até que o pólen das flores comece a infestar a brisa acalentadora da primavera. Pois então, estejam preparados e iniciem sua luta por espaço.








Ótimo artigo cara, até deixou meu dia mais animado, will to power!