Geist der Endzeit - Espírito do Fim dos Tempos
Quando os ventos da mudança trazem o Espírito do Fim dos Tempos. [Contém Spoilers!!]
Capítulo I: “Somos ladrões… Num mundo que não nos quer mais”
Essa é uma das frases, que para mim, estão entre as mais emblemáticas de Arthur Morgan em Red Dead Redemption 2. Enquanto jogava essa obra de arte oito anos depois de seu lançamento, um dos sentimentos que mais esteve presente durante a história e pela interação entre os personagens (principalmente com o protagonista, Arthur Morgan) foi que a gangue de foras-da-lei de Dutch van der Linde eram figuras anacrônicas dentro de seu próprio contexto histórico. Nas palavras de Arthur: “somos mais fantasmas do que pessoas”.
Durante a história do jogo, é exposto de forma incisiva e constante como a gangue está sempre fugindo; fugindo não apenas de gangues rivais ou dos agentes da lei, eles estão fugindo de algo que não podem escapar, estão fugindo do tempo. Enquanto você cavalga despreocupadamente em um cenário fortemente inspirado nos EUA do final do século XIX; admirando o pôr do sol, as belas montanhas, florestas e animais que dão vida ao jogo, ao longe, o apito de um trem ecoa, cortando o clima como uma lâmina afiada. É a sombra da industrialização que engole o horizonte. Em pouco tempo você sai de uma pequena comunidade pecuária e chega em uma grande cidade de concreto, com fábricas que maculam o azul do céu com uma nuvem negra de carbono. Não há mais espaço para andarilhos, pistoleiros, cowboys ou indígenas no Oeste, nem no Leste, não há mais espaço em lugar algum. A nova civilização rejeita os filhos de outrora. Os tempos mudaram.
Red Dead Redemption 2, é um épico que não só revive o crepúsculo do Oeste americano, mas ecoa os ventos opressores que hoje sopram sobre a ordem neoliberal e a cultura ocidental. O sentimento sufocante que eu tomei a liberdade de chamar de Geist der Endzeit – o “Espírito do Fim dos Tempos”. O ar carrega o peso inevitável do declínio. O mundo como você conhece está desmoronando em frente aos seus olhos e não há nada que você possa fazer. Ou você se adequa, ou será engolido. Coloque-se no lugar de um romano durante as consecutivas invasões bárbaras do norte; ou um camponês durante as Guerras Napoleônicas. É como Spengler disse: “Toda criação está fadada à decadência”. Os pistoleiros, os cowboys, uma vez usados pelo Estado para assegurar e desenvolver uma região em constante expansão, agora não eram mais necessários. Eles cumpriram seu propósito histórico com excelência, agora era a hora da civilização.
O fim daquilo que carinhosamente chamamos de Velho Oeste se dá pela chegada da indústria, da urbanização, da burocracia. Não há mais lugar para aquilo que não pode ser contabilizado, regulamentado, ou integrado. A chegada das ferrovias, o crescimento das cidades, a presença dos bancos, das agências de investigação privadas e da “lei” – o dito progresso, sempre se impõe de um jeito ou de outro, nesse caso, em uma nova ordem impessoal, técnica e inevitável. Não existe um “fim da história”, existem ciclos históricos e culturais. Em termos spenglerianos, o Velho Oeste foi o último suspiro do ciclo cultural americano, o que vem depois é a máquina, a frieza, a técnica, a civilização; que como tantas outras na história: nascem e morrem.
Capítulo II: Fim e Começo
O fim do Velho Oeste, esse fragmento consistentemente romantizado em lendas de cowboys e pistoleiros, representa o colapso de uma forma de vida fundada na fronteira, na mobilidade e na responsabilidade pessoal. É um período bastante curto da história americana — aproximadamente de 1865 a 1900, logo após a Guerra Civil —, mas deixou uma marca eterna. Isso se deu porque foi o último movimento cultural verdadeiramente orgânico e humano que surgiu nos EUA. O Oeste existiu enquanto o caráter precedia a norma e onde a sobrevivência exigia julgamento individual. Código moral, honra, tradições, conexão com a terra e a natureza. Quando isso se perdeu, não foram apenas lendas vivas que desapareceram, foi todo um estilo de vida que se tornou ilegítimo.
O que nasceu com promessas de terras, liberdade e oportunidade, morreu com exatamente as mesmas promessas sendo feitas para outras pessoas. O Oeste foi gradualmente cercado, rotas foram traçadas, terras foram leiloadas, e a ferrovia — símbolo máximo da modernidade técnica — atravessou todo o território como uma linha de sentença. Não foi bonito, não foi honrado, não foi limpo. O processo foi turbulento, sujo e sangrento. Heróico para uns enquanto trágico para outros.
A industrialização pós-Guerra Civil trouxe a imposição implacável da lei federal, que substituiu a justiça dos vigilantes por estruturas centralizadas. Agências como os U.S. Marshals e a Pinkerton National Detective Agency — retratada no jogo como um dos grupos mais implacáveis na caçada dos membros da gangue Van der Linde — foram instrumentais em pacificar o Oeste. Leis como a Homestead Act de 1862 incentivaram assentamentos, mas também foram fundamentais para a apropriação de terras indígenas, culminando em inúmeros conflitos como a Guerra Sioux de 1876 e a remoção forçada deles para reservas, como a Pine Ridge. Cowboys, outrora essenciais no estilo de vida pecuário, tornaram-se obsoletos com a chegada de cercas de arame farpado e da grande besta metálica que elimina a necessidade de longas jornadas. Pistoleiros famosos, como Billy the Kid e Jesse James, foram caçados um a um. Tribos indígenas inteiras foram massacradas e extintas durante o processo.
Para que o progresso chegue, o que há precisa deixar de haver. A primavera só chega depois do inverno. O começo de uma nova ordem depende do fim da que existia antes. Esse é o espírito do fim dos tempos. Não é sobre ser bom ou mau, é sobre infinitos ciclos de nascimento, declínio e morte. O Velho Oeste foi civilizado pela lei e pela máquina, não por superioridade moral ou ideológica, foi pela força e pela capacidade de impor. Progresso é só uma palavra bonita para florear o processo.
Entender o que eu quero dizer depende inteiramente da compreensão da lógica por trás dos ciclos culturais que Spengler propõe. Ele distingue radicalmente dois estágios de toda grande formação histórica: Cultura e Civilização. A Cultura é orgânica, enraizada, espiritual; ela cria formas, mitos, estilos e tipos humanos. A Civilização, por sua vez, é o estágio tardio, técnico e urbano, no qual essas formas sobrevivem apenas como estruturas vazias; a administração de uma ordem politico-social em cima da mistificação do que antes era a realidade concreta. Para Spengler, a transição de Cultura para Civilização é irreversível, e a vitalidade que constrói um mundo é, inevitavelmente, incompatível com o mundo que dela resulta. Não há retorno à vitalidade original, apenas a administração prolongada de um corpo histórico em declínio. Num escopo mais amplo, é o que vivemos hoje enquanto Ocidente. A tentativa desesperada de manutenção de uma ordem que colapsa sobre o próprio peso; mas como Dutch nos lembra: “Nem sempre podemos lutar contra a natureza. Não podemos lutar contra a mudança”.
Capítulo III: Senhor do próprio destino
A jornada de Arthur Morgan deixa uma mensagem dura e poética: não se escolhe quando morre, mas como. Arthur, Dutch, Micah, Bill, Javier, Sean, Kieran, Lenny… em nenhum momento houve, ou deveria haver, salvação para nenhum deles. Como foras-da-lei em um processo civilizatório, o destino deles já estava selado; não há como mudar o passado, nem adianta se rebelar contra o futuro. Arthur percebeu isso tarde demais, só lhe resta a luta para permanecer íntegro enquanto tudo ao redor se dissolve. Ele se torna o retrato perfeito da figura jüngeriana: um homem de consciência trágica. Arthur percebe, de forma gradual e dolorosa, que não há mais fuga possível. Diferentemente de Dutch, que insiste em narrativas grandiosas e planos cada vez mais abstratos, Arthur é obrigado a aceitar a realidade do fim. Ele precisa se recolher para o bosque e encontrar a si mesmo. Arthur precisa tornar-se o anarca.
O anarca, conceito lapidado por Ernst Jünger, é o homem que conquista soberania absoluta sobre si mesmo, retirando-se do mundo titânico da técnica, do Estado e das massas para preservar sua liberdade primordial. É o oposto do anarquista, Dutch, um agitador que luta contra a ordem soberana para reinar em sua própria tirania em nome da “liberdade coletiva”; o anarca é um monarca interior, um príncipe sem súditos ou domínios externos, que domina apenas o próprio ser. O Waldgänger aperfeiçoado – o “andarilho da floresta” que, em tempos de opressão totalitária ou civilizatória, refugia-se não por covardia, mas por escolha estratégica e espiritual: no bosque literal ou metafórico. Dali, impassível ao Geist der Endzeit, Arthur não busca salvação, mas redenção, tornando-se senhor de seu destino em um plano superior de existência.
Na fase final de sua odisseia, Arthur ascende às montanhas, ao coração selvagem das florestas geladas, longe dos trens uivantes e das cidades de fumaça. Ali, em solitude absoluta, ele se torna Waldgänger: abandona sua lealdade cega por Dutch, junto com as promessas vazias de um paraíso tropical. Seu diário, outrora registro de roubos e matanças, converte-se em um palco de confissões reflexivas sobre honra e moral perdida. Se não por um tiro, a tuberculose irá matá-lo, não há escapatória. Com o pouco tempo que lhe resta, só cabe ao homem decidir qual a marca que irá deixar no mundo, como acalmar seu espírito perturbado pelos fantasmas da perda e como encontrar sua paz interior, se possível.
Como um verdadeiro anarca, Arthur enfrenta seu fim sozinho, no alto da encosta sob o nascer do sol. Ofegante, surrado, traído, ele olha para o horizonte — o sol que nasce no Leste traz a luz da nova era. Ele não controla o instante final, mas molda sua essência: morre íntegro, redimido não por Deus ou pela lei, mas por si mesmo. Arthur Morgan não é mais um fantasma.
Capítulo IV: Do Velho Oeste ao fim da história
Se o fim do Oeste marca a transição da fase cultural para a civilizacional americana, o fim da história — tal como formulado por Fukuyama — representa a consolidação desse processo em escala global. Quando Spengler pensou em seus ciclos culturais, ele pensou em termos muito mais amplos do que a micro adaptação dessa lógica que eu utilizei. Acontece que o próprio geist americano está profundamente enraizado na dita cultura Ocidental, e portanto, o processo de transição civilizatória Ocidental se dá no mesmo período histórico e do mesmo modo que o americano, tal qual seu declínio apresenta-se da mesma forma.
O neoliberalismo idealizado em globalização, livre mercado e no individualismo, prometia uma prosperidade rápida como nunca antes vista, e seria mentira dizer que essa promessa era vazia. Mas como todo bom contrato diabólico, as promessas estão acompanhadas de armadilhas cruciais nas entrelinhas do contrato. Claro, o próprio neoliberalismo é um fruto do declínio ocidental; e como uma bola de neve, ela aprofunda os problemas já identificados no liberalismo e com novas camadas de complexidade. Temas que eu já explorei exaustivamente em alguns dos meus textos passados sobre Vitalismo (O que é Vitalismo?, O Niilismo, Vontade de Potência e Esteticismo: Arte, Corpo e Poder) e também em outros, como (Cidadania, Sufrágio, Estado e Globalização e Por que sou contra a democracia?). Mas em poucas palavras, podemos dizer que a ordem neoliberal está cada vez mais fragilizada, e as fraturas dessa instabilidade estão ficando cada vez mais evidentes.
Quando falamos da decadência do Ocidente, não estamos tratando do encerramento dos acontecimentos, e sim do esgotamento das alternativas. O mundo, como sempre, continua em movimento, mas já não avança em direção a algo qualitativamente novo. O poder imaginativo se esgotou e a política se resume à gestão do status quo. Em Red Dead Redemption 2, a percepção de mudança se dá de forma acentuada pela velocidade dos acontecimentos, que são violentos e bastante visíveis. No mundo real, o declínio é lento e progressivo, facilmente naturalizado. Não percebemos a perda como perda, mas como um “progresso” que é aplaudido.
Arthur via a erosão de hierarquias espirituais e valores perenes serem massivamente substituídos por um materialismo raso que pairava sobre todas as pessoas em Saint Denis. No Capítulo IV do jogo, os membros da gangue vão à uma festa luxuosa na mansão do prefeito corrupto da cidade. Depois de interagirem com aquele novo mundo alienígena, há um diálogo interessante em que Bill reclama: “Eu nunca me senti tão constrangido na minha vida… aquele pessoal todo, tudo muito satisfeito consigo mesmo… aqueles merdas da tal “alta sociedade”. Se me perguntar… parece mais uma tortura.”, no que Dutch responde: “Esse parece ser o objetivo, não é? Deixar as pessoas se torturarem.”. Um diálogo rápido que passa despercebido, mas que se encaixa perfeitamente no cenário atual do mundo.
Em outra perspectiva, se as ferrovias representavam o avanço da técnica, hoje temos a digitalização do mundo, e no caso mais extremo, a IA. Big Techs tem o poder de fazer lavagem cerebral nas pessoas, ditar o senso comum sem que se perceba, marginalizando qualquer dissidência cultural ou política. O indivíduo foi atomizado e descaracterizado, a cada semana surgem cinco novos tipos de problemas mentais e todo mundo é autista, tem TDAH ou depressão; a taxa de natalidade cai como se estivesse sob efeito da gravidade e de repente todo mundo se odeia. Talvez o objetivo realmente seja deixar as pessoas se torturarem, talvez o Ocidente estivesse se autodestruindo em nome do progresso.
O que mantinha a ordem e a estabilidade era a ideia de que nações não entrariam em grandes disputas porque dependiam umas das outras para fins comerciais. Acontece que nem essa ideia se mantém mais de pé. O Espírito do Fim dos Tempos assombra o Ocidente como a tuberculose que corroía a saúde de Arthur ao longo do jogo. O fim parece inevitável, cabe a nós decidirmos como lidar com ele. Com lealdade cega à crenças ultrapassadas? Sendo vassalos que aceitam sua inferioridade de forma impotente? Ou de cabeça erguida, nos impondo perante a opressão do tempo? Como um anarca que se torna senhor do próprio destino, como Arthur Morgan.
Capítulo V: Não é preciso temer a mudança
No fim do jogo, quando Arthur revela para Irmã Calderón que está morrendo, que pegou tuberculose ao espancar um pobre coitado até a morte por causa de alguns trocados, ele está desolado — sua mente está tomada por arrependimentos e sua consciência está pesada. Com olhos marejados e o pesar estampado no rosto, ele clama por ajuda: “Eu tenho medo”. Arthur não simplesmente teme pela sua vida, ele teme por não conseguir mais fazer algo bom com ela. Ele sente que seu tempo acabou e não há mais nada que se possa fazer. Sente-se impotente perante o inevitável.
Em outro momento Charles ainda lhe diz que sua doença foi uma dádiva para que Arthur possa finalmente enxergar as coisas como elas realmente são:
“Podemos morrer a qualquer dia. Nós dois podemos morrer essa noite… De certo modo, é um presente saber. De certo modo, você teve sorte. E que tal os irmãos Callender? Ambos mortos tentando fugir de Blackwater. A dupla mais cruel de filhos da puta que já existiu, e isso é tudo o que eles foram e serão. Você é sortudo. Você tem a chance de fazer algo melhor.”
Assim como o Velho Oeste deu lugar a uma América moderna, o neoliberalismo pode dar lugar para algo mais equânime, se agirmos para tal. Diante da imponência do Espírito do Fim dos Tempos, percebe-se que a mudança é inevitável, mas não precisa ser temida — podemos trabalhá-la em nossos próprios termos. Não tema os ventos da mudança; dirija-os para a direção que você deseja.









Que texto foda. Desculpa o palavreado, haha.
Muito bom